Em um reino muito distante chamado Hillfield, habitavam pequenas criaturas cor-de-rosa que guardavam com muito cuidado algo precioso para todo o planeta.
O reino de Hillfield era um lugar formado por lindos campos verdes, repleto de flores, de animais e por enormes colinas em toda sua volta.
Mas este reino tinha algo peculiar. Os habitantes de lá não eram capazes de mentir ou de enganar uns aos outros. Uma força maior não os deixava ser sinceros demais. Eles sempre mediam suas palavras. Sempre.
No topo da colina mais alta do reino de Hillfield, as criaturinhas cor-de-rosa que alí habitavam, guardavam um tesouro precioso. Uma caixa que continha em seu interior toda a sinceridade do mundo. A Caixa era mantida em segredo pelos habitantes daquele reino, que era aberta todas as manhãs para que a sinceridade pudesse se propagar para o mundo na medida certa. E quem tinha o direito de abrí-la era somente o rei, que conhecia todas as regras para manipular aquela Caixa.
A cidade toda funcionava normalmente, ninguém se preocupava com a Caixa. Apesar de todos saberem da sua existência e o que ela guardava, nem todos já haviam visto ela de perto, então alguns habitantes curiosos passavam por lá pela manhã para ver como se dava o ritual de abertura da Caixa, mas pelo que contavam os outros, não havia nada de muito extraordinário.
Em uma manhã ensolarada, como de costume, o rei levantou cedo para abrir a Caixa da Sinceridade. Então ele foi até a colina mais alta do reino, fez o seu trabalho e voltou para o castelo.
Yan era um mero habitante de Hillfield, que morava sozinho com seu avô desde os seus 5 anos, quando havia perdido seus pais em um trágico acidente. Ele estava curioso para conhecer a tal Caixa. Sem pressa e nem preocupação, dirigiu-se até a colina mais alta do reino e avistou de longe a Caixa. Era uma grande coisa vermelha enfeitada por laços dourados. Ela logo lhe chamou a atenção. Deslumbrado com as suas cores, Yan se aproximou quase tocando na Caixa, mas logo um guardião o impediu dizendo-lhe que só que poderia tocá-la era o rei.
Indignado com o fato de não poder tocá-la, Yan voltou para sua casa muito curioso se perguntando porque os habitantes de Hillfield não mostravam grande interesse pela Caixa, já que ela havia lhe impressionado tanto.
Cheio de dúvidas sobre a grande Caixa que havia visto pela manhã, Yan não parava de pensar no motivo pelo qual Hillfield era a cidade guardiã de toda a sinceridade do planeta, e porque ela deveria ser igualmente distribuída todas as manhãs.
No dia seguinte, Yan levantou cedo para ver de perto o ritual de abertura da Caixa feito pelo rei.
Ao chegar na colina mais alta do reino, Yan viu o rei, lentamente caminhando em direção à Caixa e de uma forma tola, o viu abrindo aquela enorme coisa vermelha.
Yan, decepcionado, resolveu se aproximar para garantir que não perdesse nenhum detalhe, mas o ritual era simplesmente aquele. Sem luzes, sem sons, sem nenhuma magia.
Mais uma vez Yan voltou para casa rondado por dúvidas sobre aquela Caixa. Se ela guardava algo tão importante, por que ela quase não era notada? Para Yan, aquele ritual deveria ser a coisa mais bonita de se ver em todo o planeta.
Decidido a obter as respostas para suas perguntas, Yan foi até o castelo falar com rei.
Chegando lá, Yan avistou 2 soldados com chapéis estranhos. Yan achou graça no começo, deu uma risada bem baixinha, mas logo voltou a ficar sério. Yan pediu aos soldados que abrissem o portão para que ele pudesse falar com o rei, mas para isso, Yan deveria responder à três perguntas banais. Yan concordou em respondê-las, então um dos soldados perguntou-lhe quem era a pessoa que ele mais amava no mundo. Yan respondeu seu avô. O outro soldado perguntou-lhe o que ele mais gostava de fazer. Yan respondeu jogar bolas de gude. Então o primeiro soldado voltou a perguntar-lhe o que achava do seu chapéu. Logo Yan achou graça, e tentou responder que gostava do chapéu, mas como se houvesse uma força maior que ele, yan respondeu que o achava bizarro. Com medo que o soldado o expulsasse, Yan deu um passo para trás, mas o soldado sorriu e abriu o portão.
Achando isso tudo meio estranho, Yan entrou e se dirigiu à sala real. Quando encontrou o rei, não demorou muito a perguntar aquilo que não saía da sua cabeça. Por qual motivo a Caixa era tão discreta e sem nenhuma magia envolvida nela.
Alegre por perceber o interesse de Yan, o rei pediu que Yan o acompanhasse até a colina mais alta do reino, onde se encontrava a Caixa. Chegando lá, o rei lhe explicou que a sinceridade era algo sutil, que deve ser usada com sabedoria, na medida certa, pois se usada em excesso, podia magoar muitas pessoas. Então como a própria sutileza da virtude, a Caixa também tinha que ser discreta, assim como seu ritual de abertura.
Yan, esperando ouvir algo mais alucinante aceitou, inconformado, a resposta do rei e voltou para sua casa.
Em sua caminhada de volta ao lar, Yan pensou que se tornasse a Caixa algo mais fabuloso, estaria então fazendo um bem para toda a humanindade. Com todo seu plano de torná-la algo facinante, Yan se preparou para sair às escondidas no meio da madrugada.
Após o jantar, Yan subiu para seu quarto, fechou a porta e esperou para ouvir o ronco alto de seu avô. Aquele seria o sinal de que estaria livre para sair.
Chegando na colina mais alta do reino, Yan não enxergava muito bem a Caixa. Só o que podia ver eram as fitas douradas que brilhavam com a luz da lua. Yan se aproximou da Caixa, devagar, com medo de acordar os guardas que dormiam ao lado dela.
Quando chegou muito próximo de encostar na Caixa, Yan se assustou com o piar de uma coruja que o observava do alto de uma árvore. Então Yan respirou fundo, chegou novamente perto da Caixa, e cuidadosamente tocou a sua borda. Com o coração muito acelerado, Yan esperou em total silêncio para ver o que aconteceria ao tocá-la. Nada. Então muito lentamente ele abriu a tampa da Caixa para ver o que realmente havia dentro dela. Mas sua tentativa foi em vão, com toda a escuridão, mal conseguia ver sua própria mão. Yan, muito curioso colocou vagarosamente a cabeça dentro da Caixa para ver se teria sucesso em ver o que ela guardava, e na tentativa de descobrir, um dos guardas acordou! Yan não pensou duas vezes e saiu rápido como um trovão dalí, deixando a Caixa aberta.
O guarda, meio assustado com o barulho, checou se havia alguém por lá, mas Yan já havia ido embora, então o guarda voltou a dormir.
No dia seguinte, bem cedo, como de costume o rei se dirigiu a colina mais alta do reino para que pudesse abrir a Caixa. Quando chegou lá, notou o desespero dos guardas, e muitos curiosos em volta da Caixa. Passando no meio daquela multidão, o rei avistou a Caixa... aberta!
Sem saber direito o que fazer o rei em um movimento rápido fechou a Caixa, mandou que todos fossem embora e voltou desnorteado para o castelo.
Não demorou muito para que cartas do mundo inteiro chegassem ao castelo relatando todo o caos que aquele incidente havia provocado.
Amantes brigando, amigos se decepcionando, famílias tristes e desamparadas. Tudo por culpa de alguém que havia aberto a Caixa e deixado escapar toda a sinceridade que havia dentro dela.
O rei logo lembrou do garoto Yan, que havia lhe falado aquela manhã. Mandou chamá-lo.
Quando Yan chegou no castelo, o rei pediu que lhe deixassem a sós.
Yan, com medo que o rei descobrisse que havia sido ele o causador de tanta tristeza no mundo, entrou cabisbaixo pelo Salão Real.
O rei, sem mais delongas, perguntou-lhe se havia estado na colina que guardava a Caixa da Sinceridade na noite anterior.
Yan, sabia que não conseguria mentir, por que no dia em que visitou o rei pela primeira vez, não havia conseguido mentir para o guarda sobre o seu chapéu. Mas de forma inesperada Yan respondeu ao rei que não. Não havia estado na colina na noite anterior.
O rei olhou profundamente para o garoto e lhe disse que era exatamente por isso que a sinceridade deveria ser guardada com segurança e distribuída ao mundo na medida certa.
Yan estava meio confuso com o que o rei havia dito e então resolveu contar-lhe a verdade.
O rei sorriu e lhe disse que já sabia que havia sido ele que abrira a Caixa, então explicou-lhe que o reino de Hillfield havia sido escolhido para guardar a Caixa da Sinceridade por que todos os habitantes daquele reino não eram capazes de mentir e nem enganar uns aos outros, diferente do resto do mundo.
Yan perguntou-lhe então por que ele mesmo havia conseguido mentir para o rei naquela tarde.
E para que o garoto entedesse, o rei lhe contou que quando o criador do mundo escolheu Hillfield para guardar a Caixa da Sinceridade deu ao rei daquela época uma condição. Que para que os habitantes daquele reino fossem eternamente felizes, sem que houvesse a possibilidade de mentirem ou que enganassem uns aos outros, seria necessário abrir a Caixa todas as manhãs para que a sinceridade fosse distribuída na medida certa ao mundo. Mas se essa missão não fosse cumprida, os habitantes do reino teriam que conviver com o livre-arbítrio de enganar e mentir para quem quisessem.
Yan, decidido a reverter aquela situação, disse ao rei que agora havia entendido o motivo da Caixa ser tão discreta e pediu ao rei que lhe desse a chance de consertar o mal que havia feito.
O rei, após muito pensar, disse que o reino de Hillfield nunca mais seria livre de mentiras e enganações, e a única coisa que poderia ser feita era usar o bom senso e aprender a conviver com a sinceridade. E que daquele dia pra frente as pessoas escolheriam livremente o que falar umas pras outras, sem medir suas palavras.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
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